Pedir feedback ao chefe no Verão: a conversa que não deve esperar pela avaliação anual

Pedir feedback ao chefe no Verão: a conversa que não deve esperar pela avaliação anual

Há uma altura do ano em que o escritório abranda. As reuniões rareiam, meia equipa já marcou as férias e o ritmo de Junho convida-nos a deixar tudo para Setembro. É precisamente nesse intervalo que vale a pena fazer uma coisa que quase ninguém faz a tempo: pedir feedback honesto a quem nos chefia, sem esperar pela avaliação anual.

A avaliação formal, quando chega, costuma estar carregada de demasiadas funções ao mesmo tempo. Serve para justificar (ou travar) um aumento, para preencher uma grelha de competências e, lá no fundo, para dar uma direção. Com tanto em jogo na mesma conversa, a parte verdadeiramente útil — o que posso melhorar já amanhã — fica diluída. Pedir feedback fora desse ciclo muda o tom. Deixa de ser um julgamento e passa a ser uma conversa entre duas pessoas que querem que o trabalho corra melhor.

Porquê agora, em pleno Verão

O calendário joga a nosso favor. O primeiro semestre acabou, portanto há matéria concreta para analisar: projetos fechados, prazos cumpridos ou falhados, aquela apresentação que correu menos bem em Abril. Tudo ainda está fresco na memória, ao contrário do que acontece em Dezembro, quando metade do ano já se perdeu na bruma.

Além disso, as agendas estão mais leves. Conseguir trinta minutos com a chefia em Novembro é uma negociação; em Junho, basta perguntar. E há um detalhe humano que conta: quem ainda não desligou para férias tende a estar de melhor disposição, mais aberto a falar sem o peso das metas de fim de ano a apertar.

Como pedir sem parecer que se anda à procura de elogios

O erro mais comum é abrir a conversa com um vago "queria saber como estou a correr". A resposta será igualmente vaga: "estás a ir bem, continua". Ninguém sai dali a ganhar. O truque está em estreitar a pergunta até ela quase não ter espaço para fugas.

Em vez do genérico, escolha um caso. "Naquele relatório que entreguei no mês passado, o que é que farias de outra forma?" Ou então: "Se eu quisesse assumir um projeto maior no próximo trimestre, que lacuna achas que tenho de fechar primeiro?" Perguntas assim obrigam a uma resposta concreta. E uma resposta concreta é a única que se consegue pôr em prática.

  • Marque a conversa com antecedência e diga ao que vai — apanhar a chefia de surpresa raramente dá bom resultado.
  • Leve uma ou duas perguntas específicas, não uma lista de dez.
  • Resista ao impulso de se defender a cada crítica. Anote, agradeça, pergunte depois.
  • Feche sempre com uma pergunta de futuro: "o que é que posso fazer diferente já no próximo projeto?"

O que fazer com o que ouvir

Receber feedback é a parte fácil. O difícil vem a seguir, quando temos de decidir o que fazer com aquilo. Nem tudo o que nos dizem é justo, e nem tudo o que é justo é prioritário. Convém separar o ruído do sinal.

Uma forma simples: depois da conversa, escreva três frases. A primeira, o que ouviu e reconhece como verdade. A segunda, o que ouviu e discorda — para pensar com calma, não para rebater no momento. A terceira, a única mudança que vai começar a fazer já esta semana. Uma só. Tentar corrigir cinco coisas ao mesmo tempo é a receita para não corrigir nenhuma.

Esse registo tem ainda outra vantagem. Quando chegar a avaliação formal, no fim do ano, já não parte do zero. Chega com provas de que ouviu e agiu. Poucas coisas impressionam mais uma chefia do que ver alguém pegar num comentário de Junho e transformá-lo num resultado em Outubro.

E se a resposta for desconfortável

Há sempre o risco de ouvir algo que não queríamos. Talvez o tal projeto que considerávamos um sucesso tenha deixado dúvidas. Talvez aquela competência em que nos achávamos fortes precise de mais trabalho do que pensávamos. Custa. Mas é infinitamente melhor descobri-lo agora, com tempo e margem para reagir, do que numa avaliação de Dezembro em que já não há nada a fazer senão encaixar.

No fundo, pedir feedback no Verão é um ato de quem leva a carreira a sério sem a levar a peito. Não se trata de agradar à chefia nem de colecionar pontos para a próxima ronda de aumentos. Trata-se de chegar a Setembro um pouco melhor do que se saiu de Julho — e de não deixar que a única conversa importante do ano aconteça quando já é tarde para mudar fosse o que fosse.