Mudar de emprego em setembro: o que fazer já em junho

Um plano prático para preparar a mudança de emprego em junho e chegar a setembro com a candidatura afinada.

Mudar de emprego em setembro: o que fazer já em junho

Junho é o mês em que muita gente, em Portugal, decide que vai mudar de emprego depois das férias. Faz sentido: as empresas voltam a contratar com força em setembro, e quem se prepara agora chega a esse pico com a candidatura afinada em vez de a montar à pressa. O problema é que a maioria das pessoas começa pelo lado errado — abre o LinkedIn, carrega no botão de candidatura e espera. Vou propor outra ordem de trabalhos.

Antes de procurar, faça contas ao que vale o seu tempo

Um salário bruto de 1 500 € por mês em Portugal não é o que lhe entra na conta. Depois do desconto para a Segurança Social (11 %) e do IRS retido na fonte, fica algures entre 1 150 € e 1 250 € líquidos, conforme o escalão e o número de dependentes. Quem está a negociar um aumento ou uma proposta nova precisa de raciocinar sempre em valores líquidos — é o que paga a renda.

Vale a pena conhecer dois números de referência de 2026. O salário mínimo nacional subiu para 920 € brutos mensais, e o Indexante dos Apoios Sociais (IAS) ronda os 525 €. Muitos apoios, subsídios e escalões estão indexados ao IAS, por isso é um valor que aparece mais vezes do que se imagina quando se fala de condições de trabalho.

O exercício das três colunas

Pegue numa folha e faça três colunas: o que faz bem, o que lhe dá gosto, e o que o mercado paga. A maior parte das pessoas anda anos a fugir disto porque a resposta honesta é desconfortável. Uma pessoa que adora desenhar mas trabalha em contabilidade vai ter de decidir se troca dinheiro por sentido ou o contrário — e essa decisão é sua, não de um teste de orientação de carreira.

Há uma quarta coluna que poucos preenchem e que costuma ser a mais reveladora: o que está disposto a deixar de fazer. Quem quer um cargo de chefia tem de aceitar passar menos tempo na parte técnica que talvez seja a que mais gosta. Quem quer trabalhar a partir de casa pode ter de abdicar do convívio diário com colegas. Toda a mudança de carreira tem um custo, e nomeá-lo à partida evita arrependimentos seis meses depois.

O mercado de trabalho português não é só Lisboa e Porto

Vale a pena olhar para fora dos dois grandes centros. Cidades como Braga, Aveiro, Coimbra e Leiria têm hoje polos tecnológicos e industriais com salários competitivos e um custo de vida bem mais baixo. Com o trabalho remoto e híbrido já enraizado em muitas empresas, há quem ganhe um salário de Lisboa a viver numa zona onde a renda é metade. Antes de assumir que tem de ir para a capital, faça as contas ao conjunto: salário menos renda menos deslocações.

O currículo que sobrevive ao filtro automático

Empresas médias e grandes em Portugal — da Sonae à Jerónimo Martins, passando por consultoras como a Deloitte — usam software de triagem que lê o seu PDF antes de qualquer humano. Se o ficheiro estiver desenhado no Canva com colunas elegantes e ícones, há uma boa hipótese de o sistema ler tudo baralhado e o descartar sem que ninguém o veja.

  • Uma coluna, não duas. O texto deve correr de cima a baixo, sem caixas laterais.
  • Sem tabelas nem cabeçalhos com informação crítica. O nome e o contacto vão no corpo, não no rodapé do documento.
  • Verbos de ação e números. «Reduzi o tempo de fecho mensal de cinco para dois dias» vale mais do que «responsável pelo fecho mensal».
  • Palavras do anúncio. Se a vaga pede «gestão de stakeholders», use essa expressão — o filtro procura-a literalmente.

Guarde sempre em PDF com texto selecionável. Se conseguir copiar e colar o conteúdo do seu próprio currículo, o software também consegue.

A carta de apresentação morreu? Quase.

Em Portugal, poucos recrutadores leem cartas de apresentação longas. O que funciona melhor é um parágrafo de três ou quatro linhas no corpo do e-mail ou no campo de mensagem da candidatura, a responder a uma pergunta concreta: porquê esta empresa, e não as outras vinte do setor. Se conseguir nomear um produto, um projeto ou uma decisão recente da empresa, mostra que não enviou o mesmo texto a toda a gente.

A entrevista: prepare histórias, não respostas

A pergunta «fale-me de si» não quer a sua biografia. Quer saber se consegue contar, em dois minutos, quem é profissionalmente e porque está ali. Prepare três ou quatro histórias curtas — um problema que resolveu, um conflito que geriu, um erro de que aprendeu — e adapte-as à pergunta que aparecer. Funciona melhor do que decorar respostas, porque ninguém faz as perguntas pela ordem que você ensaiou.

Quando falar de dinheiro

Em Portugal ainda há algum tabu à volta do salário, mas a regra prática é simples: quem diz o primeiro número ancora a negociação. Se lhe perguntarem a pretensão salarial logo de início, devolva com uma faixa — «procuro algo entre os X e os Y, conforme o pacote completo» — em vez de um valor único. E inclua nessa conta o subsídio de alimentação, que, isento de IRS até 6 € por dia em cartão, pesa mais do que parece ao fim do mês.

Não esqueça o resto do pacote, que muitas vezes vale mais do que cem euros a mais no ordenado base. Seguro de saúde, dias de férias acima dos 22 obrigatórios por lei, flexibilidade de horário, formação paga, prémios anuais — tudo isto tem valor concreto. Vale a pena perguntar por estas condições antes de aceitar ou recusar, porque duas propostas com o mesmo salário podem ser muito diferentes na prática.

Os erros que estragam uma boa entrevista

Há dois erros que aparecem vezes sem conta. O primeiro é falar mal do empregador anterior: mesmo que tenha toda a razão, o recrutador ouve um futuro colaborador que um dia falará assim da empresa dele. Diga antes que procura um desafio diferente e deixe por aí. O segundo é não ter perguntas no fim. Quando lhe perguntarem «tem alguma questão?», responder «não» soa a desinteresse. Prepare duas ou três perguntas sobre a equipa, o trabalho do dia a dia ou os próximos projetos.

E se a ideia for trabalhar por conta própria?

Muita gente confunde sair do emprego com abrir empresa. Não é preciso. O regime de trabalhador independente — os antigos «recibos verdes» — permite faturar a clientes sem criar uma sociedade. No primeiro ano de atividade há isenção de contribuições para a Segurança Social, e nos doze meses seguintes paga-se sobre uma percentagem do rendimento, não sobre o total faturado.

O erro clássico de quem começa é gastar o que fatura como se fosse salário líquido. Separe desde o primeiro recibo: uma parte para o IRS do ano seguinte, outra para a Segurança Social, e só o que sobra é seu. Quem não faz isto apanha um susto em maio, quando chega a nota de liquidação.

Por onde começar esta semana

Não tente mudar tudo de uma vez. Escolha uma coisa para esta semana: reescrever o currículo numa coluna só, ou marcar café com alguém que já faz o trabalho que você quer fazer. Essa conversa de meia hora costuma ensinar mais sobre uma profissão do que dez anúncios de emprego. A mudança de carreira raramente vem de um salto; vem de uma série de passos pequenos que, vistos de trás, parecem um plano.